19 de mar de 2008

A origem do sobrenome

Dedicado a Leonor Rizzi (que não é Rattes, mas bem que poderia ser...)

Rates, Rattes, Ratti, Ratz. Portugal, Itália, Alemanha? Afinal, qual a origem desse sobrenome?

Estudar a origem dos sobrenomes é como o estudar fósseis que nos levam ao conhecimento do nosso passado. Saber a origem e o significado dos sobrenomes satisfaz uma curiosidade e abre uma janela de possibilidades como conhecer algo sobre a procedência de algumas características familiares; sejam elas físicas e genéticas ou traços culturais advindos das etnias, grupos lingüísticos, eventos, modos de vida, gastronomia, ocupações e ofícios e regiões que habitavam nossos ancestrais mais remotos e que podem chegar, de alguma maneira, até as gerações mais recentes.

Os nomes pessoais primitivos surgem, indubitavelmente, pouco depois da invenção do idioma falado, nas idades não registradas que precedem a história moderna. Durante milhares de anos, os nomes eram as únicas designações que homens e mulheres utilizaram, quando o mundo era menos populoso que hoje e cada homem conhecia seu vizinho; uma indicação de endereço era suficiente para encontrar ou localizar uma pessoa. Com a invenção da escrita e um aumento maior da população mundial, isto foi ficando cada vez mais complexo, fazendo-se necessária uma mudança. Com o passar dos séculos, foram se formando as distintas línguas e assim nasceu um novo problema: a designação das pessoas.

Os nomes remontam às necessidades humanas ancestrais de identificar indivíduos, funcionavam mais como apelido. Normalmente foram atribuídos por suas características físicas ou pelos desejos idealizados por seus ancestrais. Muitas razões são apontadas para o uso de nomes e sobrenomes, das mais práticas como simplesmente chamar ou apelidar alguém, contar histórias sobre um indivíduo ou até questões de identidade cultural, proteção da descendência, heranças familiares como uma forma de certificar-se sobre a origem desse indivíduo.

Os etruscos já empregavam uma fórmula de pré-nomes, nomes e cognomes muito semelhante às atuais e depois influenciando os romanos espalhou-se pelos quatro cantos do mundo. O pré-nome tinha o mesmo significado atual do nome (de batismo p.ex.), o nome deu origem ao sobrenome ou nome de família e os cognomes eram uma espécie de apelido identificador ou título daquele indivíduo.

Os nomes de família (sobrenomes, nomes de família, surnames, lastnames, cognomi, apellidos, prénoms, familiennames, nachnames) surgiram da necessidade de identificação das pessoas especialmente durante a Idade Média. Até então, a alta nobreza, por razões de sucessão e heranças, utilizavam alguma forma de identificação de filiação. Imitando os costumes de pessoas proeminentes ou para diferenciação das famílias ou ainda para aspectos práticos de censos populacionais, os homens mais comuns passaram a utilizar como sobrenomes as designações de seus ofícios ou habilidades, de seus lugares de origem (toponímicos), de suas condições sócio-econômicas, de plantas ou animais ou, ainda, referentes aos nomes próprios devido à filiação, vassalagem, exércitos, tribos ou clãs de origem (Homeonímicos).

Os romanos foram os primeiros a observar que com a elevação da sua civilização, surgia a necessidade de designações específicas para reclamar seus direitos a heranças e classes. Assim, inventaram um sistema complexo, em que cada patrício recebia vários nomes. Nenhum deles, no entanto, correspondeu exatamente aos sobrenomes como nós os conhecemos hoje em dia, para "o nome do clã", ainda que hereditário. Também os escravos e outras pessoas relacionadas receberam nomes. Os exemplos são os Cláudios, a casa dos Tibérios e os Julianos. A lei estabelecia que quando um escravo era emancipado tomava os dois primeiros nomes de quem o liberava e os antepunha ao seu; quando era uma pessoa adotada, os nomes do adotante eram postos em seguida, de maneira a se distinguir os libertos das pessoas livres. Os romanos utilizavam primeiro o NOMEN, equivalente ao nome ou características físicas descritivas, de índole tradicional. Em seguida, no meio, ia o COGNOMEN, que constituía o sobrenome ou linhagem da família. Finalmente, figurava o AGNOMEN, que era descritivo de alguma qualidade, ofício, caráter pessoal ou defeito da pessoa. Às vezes, se antepunha um PRAENOMEN antes do NOMEN para acrescentar alguma qualidade especial ou mérito notório. Um exemplo do sistema romano de identificação pessoal é o de CAIO JÚLIO CÉSAR, cujo nome romano completo era: GAIUS LULIUS CAESAR. GAIUS era o NOMEN, que indicava "bonito", "belo", "charmoso". LULIUS era o COGNOMEN, que indicava que provinha da linhagem ou família (Julia). Finalmente, CAESAR significava "de cabelos longos" em latim, o que podia descrever uma característica física ao nascer, ou talvez alguma qualidade tradicional, visto que Júlio César era calvo na idade adulta. Este sistema foi aplicado por lei em todo o Império Romano, incluindo a Hispânia, que compreendia a Península Ibérica. Podemos apreciar a complexidade do resultado de um sobrenome quando o mesmo foi nome na época romana, pois a origem do liberto ou do adotado podia ser muito variada, tendo em conta que o Império Romano dominava e escravizava quase tudo que era conhecido naquele momento como mundo civilizado.

Este sistema demonstrou ser uma inovação temporal e complexa; ao ser derrubado o Império Ocidental pelos invasores bárbaros, houve uma reversão ao costume primitivo de utilizar um só nome. Apenas gradualmente, com o passar dos séculos e a complexidade crescente da sociedade civilizada, fez-se necessárias designações mais específicas. Enquanto se pode remontar às raízes de nosso sistema de nomes familiares aos precoces tempos civilizados, vemos que os apelidos hereditários, como os conhecemos hoje, surgem aproximadamente a partir do ano 900DC.

Desta época em diante era agregado ao nome de batismo outro nome, o qual hoje em dia conhecemos como sobrenome. Um sobrenome, então, é um nome agregado a outro batismal. Estas designações são de vários tipos e se classificam segundo a origem.

No ocidente europeu foi a partir dos séculos XV e XVI que os nomes de identificação tornam-se de fato sobrenomes de família e passam a ser sistematicamente registrados, normalmente nas igrejas de batismo. Pesquisar a árvore genealógica até essas épocas é uma possibilidade real ainda que apresentem dificuldades para se encontrar documentação comprobatória. Para épocas anteriores as dificuldades se multiplicam.

Em 1564 o Concilio di Trento ordenou que as paróquias registrassem cada indivíduo com seu próprio nome e o respectivo sobrenome. Desde então cada um de nossos ancestrais vem transmitindo o nome de família a seus descendentes, definindo e registrando os graus de parentescos.

A classificação de sobrenomes é uma disciplina interdisciplinar com ênfase na lingüística. Permite perscrutar, com mais ou menos certeza, sobre uma possível origem ancestral similar ao estudo dos fósseis na antropologia e arqueologia. As classificações são muitas. Resume-se aqui uma das possibilidades:

PATRONÍMICOS: Refere-se a um nome próprio, geralmente do patriarca (capostípite) da família (grupo, tribo clã), em geral referenciado como o filho de... Pode designar um clã familiar. (De Giovanni, Di Giacomo, Henriques, MacBeth, De Marco, Henriques, Marchi, Perez - filho de Pero ou Pedro, Hissnauer - família Hiss, Gallucci);

MATRONÍMICOS: Semelhante ao anterior porém referindo-se ao nome da mãe (Di Grazia);

HOMEONÍMICOS: Designa origem em uma mesma tribo, clã, núcleo humano definido por uma identidade. Pode ser compreendido como uma subclassificação de Toponímicos ou Patronímicos. Entretanto fornece maior precisão pois esse grupo humano poderá ter vivido em diversas regiões e não ter uma única liderança ou patriarca ainda que possam ter uma origem em um lugar ou em uma liderança distanciam-se desse início e, mesmo assim mantém um forte laço de identidade. Ex. Gallucci, Hissnauer - dos Hesseanos [Veja argumentos em: Sobre a origem dos sobrenomes].

TOPONÍMICOS (habitacionais ou étnicos) – Do lugar ou povo de origem. (Oliveira, Ferreira, Barcelos, Palermo, Corleone, di Napoli, Calabresi, Franco, Germano, Morano, Santiago).

ANTROPOMÓRFICOS – Referem-se às características físicas, como estatura, cor de pele ou cabelo ou sinais marcantes etc. (Rosso/Rossi, Moreno, Bianco/Bianchi/Blanco, Penteado, Morano), ou ainda qualidades morais ou comportamentais (Ratto/Ratti, Vero, Gentile, Guerra, Bento);

TEÓFOROS: Fórmula votiva ou religiosa (Laudadio, Dioguardi, Amodeo, Bárbara, Santiago, Bento). De muitas maneiras surgiram os nomes vocativos às divindades, como forma de prestar honra às mesmas, afirmar ou disfarçar a adoção de um credo. Outra possibilidade é a adoção desses nomes em crianças órfãs ou abandonadas e recolhidas por conventos e instituições similares, também era comum nesses casos receberem nomes invocativos de santos do dia e dias da semana (Francisco, Santiago).

TOTÊMICOS. Difere dos Teóforos por estarem associados à uma identidade de núcleo humano, tribo ou clã. Tem um sentido de proteção divina ao grupo e não a um indivíduo.

MAESTRIA, OFÍCIO ou PROFISSÃO: Referente diretamente à profissão ou aos seus instrumentos de trabalho. (Machado, Wagner, Cartolano);

QUALIDADES METAFÓRICAS: Referem-se às qualidades de qualquer natureza sem explicitá-las, mencionando-as de modo metafórico (De Marco, Marchi, Marques - além do significado patronímico, podem ser referentes em sua origem a um marco de território, fronteiras ou ao deus da guerra, Marte).

CRONOLOGIA: Indica a seqüência de nascimento como Primus, Primitius: o primeiro nascido; Tertius: o terceiro; Ottavo: oitavo.

HOMENAGEM: Rende uma homenagem a alguém ou lugar ou a outros interesses, como os religiosos (Santiago).

CIRCUNSTÂNCIAS: Define o nascimento em alguma circunstância que merece algum destaque. Exemplo: Entre os romanos Lucius que nasceu à luz do dia ou ao romper da manhã; Dominicus ou Domingos por nascer em um domingo. Nascimento ou Natalia podem ser pessoas nascidas no (ou próximas) do ano novo ou no dia do Natal; ou ainda Januário e o italiano Gennaro: nascidos em janeiro.

ONOMÂNICOS: Para os nomes atribuídos a alguém com a finalidade de transmitir determinada qualidade.

HÍBRIDO: Inclui duas ou mais possibilidades de classificação dos nomes familiares. Pode ser grafado Teo-Comportamental, p.exemplo.

INOVADO ou INVENTADO ou ADOTADO: Pode ser produzido por diversas razões como a falta de compreensão de nomes anteriores, grafias equivocadas, apelidos recentes que tornam sobrenomes incorporados, grafias equivocadas de lembrança de sobrenomes ancestrais que não aparecem nos pais ou avós imediatos (Gobet - Gobete; Hissnauer - Missnauer). Adoção de um nome sugerido como nome composto que torna-se sobrenome nas gerações futuras, modismos e tantos outros motivos.

Diante dessas considerações, colhidas em AMODEO, W. – AMODEO: Estudo de um ramo familiar (Título anterior: Família Bento Amodeo: Origens, lendas, histórias e genealogia. Internet: www.amodeo.bravehost.com e www.genealogia.amodeoweb.com. Versão 07/2007. [atualizada de 07/2004]. Visitado em: 19/03/2008. Brasil) e LIBRANDI, Liliana (Origen y surgimiento de los apellidos), fico inclinado a considerar duas possibilidades para a origem do sobrenome RATES (ou RATTES): se toponímica, deriva da freguesia portuguesa de Rates, no concelho de Póvoa de Varzim; se antropomórfica, advém da palavra ratto (ou ratti, no plural), que em italiano significa “rato”, designando agilidade e rapidez. Na Europa antiga, de um modo geral, não existia o sobrenome (patronímico ou nome de família). Muitas pessoas eram conhecidas pelo seu nome associado à sua origem geográfica, seja o nome de sua cidade ou do seu feudo: Pedro de Rates, Juan de Toledo; Louis de Borgonha; John York, entre outros. No Brasil, imigrantes adotaram como patronímico o nome da região de origem. Parece certo que as referências mais remotas que se tem no Brasil apontam a Pedro de Rates Henequim e Manoel Antonio Rates. Por conta disso, concentrarei as pesquisas em Portugal, direção que me parece mais coerente com a história.

9 comentários:

leonor rizzi disse...

Roberto.
Gratidão hoje e sempre. Somos filhos da Criação portanto, em algum nível e sem sombra de dúvidas poderemos nos considerar irmãos. Paz, Luz, Amor Incondicional e Harmonia a todos. Universo em Harmonia nos responda: Quem era nosso irmão Manoel Antonio Rates, da Cachoeira de Rates, que viveu no Brasil Colônia, na Latitude: S. 21 27'40" Longitude W.45 13' 30", nos idos anos de 1770.

Projeto Partilha disse...

Para quem está em outra região, e muito distante geograficamente um recado. Leiam, para que não haja confusão na localização, já que vários nomes aparecem com a mesma denominação em diferentes espaços. Aqui, ainda maior chance de induzir a erros: a presença do Cavalo Mangalarga. Sob o Título, A VOLTA DOS CRIMINOSOS, texto de Ricardo L. Casiuch e Maria Petronilha F. Junqueira. Está disponível em www.pedigreedaraça.com.br/a_volta_dos_criminosos.doc?

Projeto Partilha disse...

"Andreguisse" termo utilizado no testamento de dona Thereza Maria da Conceição, filha de dona Maria de Moraes Ribeiro, refere-se a "Andrequiçé-MG". Continuamos, no entanto, a utilizar o primeiro termo simultaneamente, para fins de estudo, sempre que ligado ao personagem Pedro Rates Henequim.

Amodeo disse...

Nem sempre fere-se direitos autorais ao se utilizar textos prontos da internet, mas, especialmente quando solicitado, é sempre sinal de civilidade dar os créditos indicados

Amodeo disse...

Desculpe-me esqueci de acrescentar um OBRIGADO pela indicação. Que possa sempre fazer boas pesquisas na web e felicitações à Família Rattes

Khettellryn disse...

oiee..meu nome é Khetty Rattes....e foi muito bom saber a origem do meu nome!!

Irene agrados e mimos disse...

Oi meu nome é Irene Rates e meu pai Pedro Rates Corrêa, fiquei feliz de encontrar referências sobre meu sobrenome, pois não é um sobrenome muito comum. Obrigada.

sarah rates disse...

oooi meu nome é Sarah Rates, obrigada por ter explicado direitinho, agora sei de onde vem meu sobrenome rsrs' vlw (=

Gabi Rattes disse...

Obrigada pela matéria... Meu nome é Gabriella da Silva Rattes.