2 de jan de 2009

Custódio José Ferreira Rattes e Bagagem



Meu tataravô, Custódio José Ferreira Rattes. No verso da fotografia consta a seguinte inscrição manuscrita: “Pa a Exma Snra D. Constança Theodolinda Barbosa, q lhe envia Custodio José Ferreira Rattes, com signal da amisade e respeito. Bagm, 29 de fevereiro de 1880”.

A localidade é Bagagem, Minas Gerais, atual município de Estrela do Sul, sobre a qual vou falar um pouco.

No início da colonização brasileira, a atual área do Triângulo Mineiro, até então denominada de Sertão da Farinha Podre, foi habitada por índios (a maior parte os Caiapós). Na maioria, esses índios eram nômades e circulavam pelas redondezas, sem moradia fixa, mudando de tempos em tempos em busca de caça e pesca. Essa vida nômade é compreendida como uma estratégia de defesa, tanto em relação aos animais como às tribos inimigas. Com maior facilidade, a defesa podia ser encontrada em ambientes de florestas, montanhas e cavernas por serem mais acolhedoras e oferecerem melhores condições de esconderijo do que as encontradas no Cerrado, ecossistema natural da região. Essas características da vida indígena indicam as poucas evidências quanto à transformação do meio ambiente natural, que, nesse momento, é praticamente insignificante ou nula.

Com a chegada de bandeiras e colonizadores fazendeiros, os índios fugiram em busca de áreas livres da presença do homem branco, e o meio ambiente natural foi alterado. Assim, a fuga indígena, também, justifica a entrada dos bandeirantes rumo ao sertão. Como uma forma de resolver o problema de subsistência, os bandeirantes embrenharam-se pelos sertões, tornando as entradas uma profissão para adolescentes, tanto para as expedições de apresamento como para o sertanismo em geral.

O Sertão da Farinha Podre, que compreendia todas as terras situadas entre os rios Quebra Anzol, das Velhas, Grande e Paranaíba, pertenceu, num primeiro momento, à capitania de São Paulo, depois, à de Goiás, e, somente em 1816, passou ao domínio de Minas Gerais.

Até o início do século XVIII, as terras da região não despertaram interesse para as bandeiras, pois, geograficamente, não ofereciam garantias para encontrar metais e pedras preciosas. Apenas com a intenção de desbravamento do interior do país, em busca de riquezas existentes em outras localidades, é que nessas terras começaram as passagens das expedições pela região.

A primeira bandeira a passar pelo Sertão da Farinha Podre foi a de foi Bartolomeu Bueno da Silva – o Anhangüera. Em 1722, seu filho, Bartolomeu Bueno da Silva Jr. – o Anhangüera II –, cumprindo ordens do governo colonial para encontrar as minas auríferas, partiu de Piratininga com um grupo composto por brancos, índios e escravos, somando 152 pessoas no total, e iniciou o desbravamento da rota que deu origem aos primeiros povoados da atual região do Triângulo Mineiro. Foi no comando desse grupo, que o bandeirante fez um percurso com trilheiros até as margens do Jeticaí – Rio Grande, e passou pela foz do Rio do Carmo até atingir a margem oposta, o Sertão da Farinha Podre.

Nessa ocasião (ainda em 1722), João Leite da Silva Ortiz, genro de Anhangüera, pára num ponto de pouso às margens de um ruidoso e caudaloso rio (que veio a ser denominado, tempos depois, Rio da Bagagem) descobre diamantes, muitos deles de diversas cores, como rosa, verde e violeta.
Sob a adoção deste nome para a localidade não se pode afirmar muito, restando apenas o recurso da tradição, que assegura ter sido tal denominação usada pelos garimpeiros que, deixando no local o grosso de suas munições e víveres, enquanto largavam-se por todo o percurso do rio que é diamantífero em toda a extensão, ao voltar ou referir-se ao local onde haviam deixado o maior volume da carga, diziam: “vou à bagagem” ou “tal objeto ficou na bagagem”. Como se sabe, bagagem é o nome do conjunto de coisas levadas por um viajante. Nesse trecho dois conglomerados se formaram: a parte de cima levou o nome de Cachoeira e a de baixo, de Joaquim Antonio.

As primeiras sesmarias doadas nessa área foram concedidas em 1818, ao Padre Fortunato José de Miranda e a Manoel Dias da Rocha. De 1772 a 1849, o local não passou de um garimpo, progredindo muito lentamente.

Em 1849 a Bagagem Diamantina já se tornara um próspero povoado com a população acima de trinta mil habitantes, tornando-se um eldorado, com a vinda de aventureiros de todas as partes do país. No chamado rush minerador, o crescimento populacional, típico de cidades mineradoras atingiu o povoado que, dentro de poucos anos se promoveu de povoado à freguesia e de vila à cidade.

O processo de urbanização só foi intensificado a partir de 4 de maio de 1852, com a criação do Distrito de Paz no Arraial da Bagagem, pertencente à comarca de Patrocínio, coincidindo com a descoberta do famoso diamante “Estrela do Sul”. Conta-se que uma escrava de nome Rosa, de propriedade de Casimiro de Morais, encontrou um diamante de rara beleza (pesando 254,5 quilates) sobre um monte de cascalho. Esse diamante levou o nome de Estrela do Sul. Nessa época, verdadeiros bandos de malfeitores se organizavam para saquear os viajantes nas estradas, uma vez que era constante o tráfego de pedras preciosas. Coube a uma força de voluntários pedestres de Patrocínio a tarefa de acabar, em 1853, com um dos bancos que mais terror espalhava nas redondezas.

Dentre vários aventureiros que rumaram para Bagagem em busca do sonho de riqueza está D. Anna Jacintha de São José, a famosa cortesã do Brasil Império, conhecida como Dona Beija, que lá viveu por mais de vinte anos, até o seu falecimento.

Como grande parte da população era escrava, os negros construíram para eles em 1853, a capela de Nossa Senhora do Rosário, a santa padroeira da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Posteriormente, a Capela abrigou São Benedito, também protetor do povo negro.

O povoado, então conhecido pelo nome de “Diamantino da Bagagem”, foi transformado em distrito pela Lei Provincial nº 667, de 27.04.1854.

Pela Lei Provincial nº 777, de 30 de maio de 1856, o distrito foi desmembrado de Patrocínio e elevado à condição de vila, com o nome de Bagagem, instalado em 30 de Setembro de 1858.

Em 13.10.1858 nasce Elídio Rattes, meu bisavô.

Devido ao grande crescimento verificado no local, a Vila de Bagagem foi elevada à categoria de cidade, pela Lei nº 1101, de 19.09.1861. Sua população, diretamente vinculada ao garimpo, apresentava significativa rotatividade em busca dos diamantes e residia em habitações improvisadas, que se perderam no tempo.

Crescendo sempre, chegou a ser um dos mais importantes centros comerciais da província. Sob sua administração política estavam Santana da Aldeia do Rio das Velhas (Indianópolis); Brejo Alegre (Araguari); Troncos (Grupiara); Carmo da Bagagem (Monte Carmelo); Crioulos (Pedrinópolis); Espírito Santo do Cemitério (Iraí de Minas); Boqueirão (Douradoquara); São João do Rio das Pedras (Cascalho Rico); São Miguel da Ponte Nova (Nova Ponte) e Água Suja (Romaria).

Em 1870, a cidade começa a viver o seu declínio, causando uma explosiva retirada de aventureiros às suas origens. Em 1873, faleceu D. Beija.

Vale lembrar que em 1891, aos 33 anos, Elídio Rattes já se encontrava em Alegre, no Espírito Santo, quando nasceu seu primeiro filho, Apolinário.

Pela Lei Estadual nº 319, de 16.09.1901, o município de Bagagem tomou a denominação de Estrela do Sul.

3 comentários:

leonor disse...

Nossa Roberto, fazia uma imagem completamente diferente do Sr. Custódio. Eu o via, em minha imaginação, como um senhor bem alto e robusto. Parabéns pelo resgate. Gratidão pela oportunidade em conhecê-lo.

pedro disse...

Prezado Roberto. Sou Pedro Popó, jornalista profissional, escritor e ex-vereador em Estrela do Sul, descendente direto dos Bagaginhas. Estou concluindo um livro sobre famílias bagageiras e preciso de informações sobre a sua. Favor entrar em contato comigo pelo e-mail pedro.popo@yahoo.com.br

kas disse...

Excelente!