7 de fev de 2008

São Pedro de Rates - O distrito capixaba



Essa é uma visão de São Pedro de Rates, distrito de Guaçuí, no Sul do Espírito Santo, próximo às divisas com Minas Gerais e Rio de Janeiro. Como minha mãe e alguns de seus irmãos são nascidos em Guaçuí (ES), fiquei curioso com o nome do tal distrito, mesmo porque meu avô Apolinário e meu tio-avô Feliciano nasceram em Alegre (ES), em 09.07.1891 e 18.03.1893, respectivamente. Daí, seria simples imaginar que meu avô e seu irmão teriam contraído núpcias e mudado de Alegre para Guaçuí. Só que parece não ter sido bem assim.

O município de Alegre foi oficialmente instalado em 6 de janeiro de 1891, resultado do desmembramento de Cachoeiro do Itapemirim. Como se vê, Apolinário, nascido 6 meses após a instalação do município, foi um dos primeiros alegrenses.

E o que tem Guaçuí a ver com isso? Na verdade, Guaçuí é "filha" de Alegre e "neta" de Cachoeiro do Itapemirim.

As terras de Guaçuí eram dominadas por tribos de índios puris, descendentes da nação tupi, localizadas num aldeamento onde está a sede do distrito de São Pedro de Rates.

Em 1820, Manoel José Esteves de Lima explora a região à procura de riqueza (metais preciosos). Vindo de Mariana, Minas Gerais, chefiava uma "bandeira" composta de 72 pessoas que seguia o curso do rio Itapemirim. Eles chegam aos domínios do Barão do Itapemirim.

A colonização começa a 29 de setembro de 1838, quando Justino Maria das Dores e mais dez Bandeirantes estabelecem-se na circunvizinhança. Deram o início à organização e cultivo de terras, promovendo o desenvolvimento agrícola e econômico da região. Eram: Manoel Domingos Viana, João Damasceno Barbosa, Joaquim Gomes de Azevedo, Domingos José Gonçalves de Ataíde, e os paulistas Antonio Ourique de Aguiar Valim e Silvestre Joaquim Rosa (irmãos), o guarda-mor português Joaquim Lobato e os irmãos paulistas Francisco Luiz e Luiz Francisco de Carvalho (este considerado um dos primeiros em Guaçuí a libertar seus escravos). A primeira denominação do lugar foi Bom Jesus do Livramento, em razão de uma imagem de Bom Jesus trazida por uma das escravas de Francisco Luiz de Carvalho.

A freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Alegre foi criada pelo decreto provincial nº 22, de 24 de julho de 1858, subordinada ao município de Cachoeira de Itapemirim (Cachoeira, e não Cachoeiro, como hoje). Em 25 de novembro de 1861, a Resolução nº 122 cria a Subdelegacia de Polícia de Veado, na Paróquia de Alegre, município de Itapemirim, com limites pelo rio Itabapoana, a partir da barra de Castelo, e pelo Rio Preto, até a Serra do Caparaó. Com a Lei Provincial nº 9, de 1866, é criado o distrito de Veado e anexado ao município de Cachoeira do Itapemirim.

Nossa Senhora da Conceição do Alegre foi elevada à categoria de Vila com denominação de Alegre pela Lei Provincial nº 18, de 03 de abril de 1884. Em 11 de novembro de 1890, pelo Decreto Estadual nº 53, a vila de Alegre foi desmembrada de Cachoeira de Itapemirim e constituída como município autônomo. Sua instalação, todavia, só veio a ocorrer em 6 de janeiro de 1891 (como se vê, Apolinário Rattes foi, de fato, um dos primeiros alegrenses).

Alegre foi elevado à categoria de cidade pela Lei Estadual nº 1208, de 22 de dezembro de 1919. Nos quadros de apuração do Recenseamento Geral de 1920, o município era constituído de 6 distritos: Alegre, Café, Caparaó, Rio Preto, Vala de Souza e Veado.

Em 25 de dezembro de 1928, Veado foi elevado à categoria de vila pela Lei Estadual nº 1688. E em 10 de janeiro de 1929, foi instalado o município, que com território desmembrado do município de Alegre ficou integrado pelos distritos de Veado (sede), São Lourenço e Rio Preto. Em 3 de janeiro de 1930 (Lei Estadual nº 1730) é criado o distrito de São Pedro de Rates e anexado ao município de Veado. Em 30 de dezembro de 1929, Veado é alçado à condição de cidade (Lei Estadual nº 1722).

Em 8 de agosto de 1931, Veado passou a denominar-se Siqueira Campos. Alguns historiadores afirmam que o topônimo Siqueira Campos foi uma homenagem ao Tenente Antonio Siqueira Campos, um dos dois sobreviventes do movimento revoltoso “Os Dezoito do Forte”, no Rio de Janeiro (Copacabana) em 1922, e líder tenentista da revolução de 1930. Em 1930, ao saber que Luís Carlos Prestes lançaria um manifesto comunista, Siqueira Campos viajou até Buenos Aires, na Argentina, onde tentou convencer o chefe a mandar a idéia para não dividir os esforços revolucionários. Na viagem de volta, realizada na madrugada de 10 de maio de 1930, o avião que o trazia de volta ao Brasil, caiu no Rio da Prata, quase em frente a Montevidéu, no Uruguai. De acordo com os registros históricos, Siqueira Campos, enquanto nadava para a terra, sofreu um ataque cardíaco e faleceu antes de mesmo de afundar.

Outra versão aponta direção bastante diversa. Com o passar dos anos, o nome do animal “veado”, que batizava o município de São Miguel do Veado, tomou um tom pejorativo, havendo um movimento na comunidade pela troca do nome. Conta-se que gente da vila foi a Vitória, para discutir a mudança do nome do município, quando, durante a reunião no Palácio Anchieta, o Interventor João Punaro Bley vê, entrando na baía da cidade, o navio Siqueira Campos, tirando daí o novo nome do município.

É fato que na década de 1930 havia era uma imensa baderna a criação de nomes de municípios, cidades, distritos e vilas. Dois decretos de Getúlio Vargas colocaram um pouco de ordem no caos. O primeiro, nº 311, de 1938, sistematizou a divisão territorial do País. O segundo, nº 3599, de 1941, determinou a eliminação de nomes de municípios em duplicidade. Siqueira Campos era município da região norte do Paraná desde 5 de novembro de 1930. Por lei, garantia-se preferência de nome para quem escolheu primeiro.

Novo decreto estadual , em 31 de dezembro de 1943, remeteu a Siqueira Campos capixaba às origens de nação tupi, batizando-a com o nome, agora definitivo, de Guaçuí. Os dicionários de tupi-guarani demonstram que 'guassu' significa 'veado', e a terminação 'y', 'rio'. Reconstruiu-se a história do princípio do século XIX, quando o capitão-mor Manoel José Esteves Lima e a sua milícia fundaram a povoação às margens de 'guassu-y', rio Veado. No mesmo decreto, o distrito de São Lourenço passou a denominar-se Imbuí e o distrito de Rio Preto a denominar-se Divisa (que não tem nada de tupi-guarani...). Alguns autores atribuem como correta a tradução para "veado pequeno".

Em 1953, é criado o distrito de São Tiago, desmembrado do distrito de Guaçuí e Imbuí, e anexado ao município de Guaçuí. Em 1963, os distritos de Divisa e Imbuí são desmembrados de Guaçuí e elevados à categoria de município, com as denominações de Dores do Rio Preto e Divino de São Lourenço, respectivamente. Atualmente, o município é constituído de 3 distritos: Guaçuí, São Pedro de Rates e São Tiago.

Diante disso, podemos supor que Elídio Rattes, nascido em Minas Gerais, instalou-se na região de Alegre (na época pertencente a Cachoeiro do Itapemirim) na segunda metade do século XIX, provavelmente na localidade onde hoje está situado o distrito de São Pedro de Rates, que atualmente pertence a Guaçuí. Afinal, a denominação dada ao distrito criado em 1930 tem a ver com a Família Rattes (tronco de Elídio) ou seria uma homenagem de pessoas da região ao santo lusitano?

Tarefas interessantes que derivam de tudo isso:
1. Descobrir de onde, precisamente, saiu Elídio Rattes em direção ao Espírito Santo;
2. Verificar os registros que fundamentaram a edição da Lei Estadual 1730, de 03.01.1930, que criou o distrito de São Pedro de Rates, com vistas a resolver a questão toponímica;
3. Aprofundar as pesquisas sobre a origem da família Rattes (italiana, portuguesa, alemã?);
4. Verificar se Rattes, Rattis, Rates, Ratz e outras formas de grafia derivam do mesmo tronco comum.

11 comentários:

Milton disse...

Excelente pesquisa Roberto ja ouvi muitas coisa sobre a origem da familia mas achei sua pesquisa otima. Milton Rattes

Leonor rizzi disse...

Roberto.
Existe no Sul de Minas Gerais uma cidade chamada Carmo da Cachoeira. Quando foi desmembra do Município de Lavras do Funil, passando para jurisdição de Três Pontas, pela Lei n.1597, de 3/jul/1868, recebeu a denominação de "Cachoeira do Carmo de Rates". É tido como seu primeiro Morador, Manoel Antônio Rates. Vamos nos juntar na busca?

Anônimo disse...

Roberto. Lanço um desafio. Aceita quem tem condições. "Os Rattes" tem, não tenho dúvidas.
Desenvolver um trabalho acadêmico que discuta a questão, na área de Ciências Políticas. Especificamente, grupos no poder. Como era? O primeiro grupo de poder,reis, capitães, generais? O segundo nas mãos das elites genéticas paulistas?. Sua avoenga era paulista, lembra-se. Seria colocar as mãos na massa e amassar .... .... .... ...

luiz ferraz moulin disse...

Sou seu primo, fui Prefeito de Guaçuí por duas vezes e conheço muito O Paulo Rattes e seu paí o primo José.Conheço bem a história do Coronel Elídio RAttes e de sua esposa tia Elvira Salles Pinheiro de Moraes.

Anônimo disse...

Sou de São Paulo, mas minha mãe nasceu em Alegre e curiosamente minha vó que também é de Alegre, mora em São Pedro de Rates. Achei legal a história, boa pesquisa.

Anônimo disse...

MORO ATUALMENTE EM CACHOEIRO, MAS SOU NASCIDO EM SAO PEDRO DE RATES, E ACHEI LEGAL ESSE BLOG...PARABENS

Duarte Lopes disse...

"Poxa"!
Cada vez me surpreende mais. Afinal, e pesquisando no seu blogue, acabei por descobrir a existência de uma localidade brasileira com o mesmo nome da minha: S. Pedro de Rates, Póvoa de Varzim, distrito do Porto, Portugal.
Não sei se estou a meter a foice em seara alheia, mas aqui http://carmodacachoeira.blogspot.com/2010/02/voluntarios-de-sao-pedro-de-rates.html está um blogue de Carmo da Cachoeira.

Anônimo disse...

moro em sao pedro d rates adorei os comentarios,venhao nos visitar,obrigado pela atensao

Marcelo Peixoto disse...

Marcelo Gonçalves.

Nasci em Guaçuí, e moro em São Paulo, gostei muito da pesquisa, parabéns!
Só um acréscimo, Guaçuí em algumas pesquisas que fiz também significa "águas pequenas".

andreia wkt disse...

incrível,eu vivi até os 8 anos no Recreio q é vizinho a sao pedro de rattes,e foram os melhores anos d minha vida...tenho saudades,de lá fui para dona américa,depois guaçuí...mas amei essa sua pesquisa...eu tenho 33 anos e me esclareceu muita coisa que eu nem fazia idéia...parabéns.hoje vivo no Rio de Janeiro e morro de saudades de voltar.

Anônimo disse...

Será que o Vosso S. Pedro de Rates (distrito do municipio de Guaçuí - Brasil)terá alguma coisa a ver com a nossa freguesia S. Pedro de Rates (concelho Póvoa do Varzim, Distrito Porto, Portugal)? ou foi coincidência...